quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

a vida de leôncio.

leôncio andava sempre com as mãos nos bolsos da calça.
menos por frio. mais-- porque não sabia o que fazer com elas.

explico: as mãos de leôncio tinham vida própria. um cérebro para cada uma das mãos. ou seja, no total, eram 3. um cérebro localizado debaixo do chapéu. e os outros dois nas mãos. nos bolsos.

a mão direita era safada. gostava de se esfregar nas bundas alheias. a mão esquerda, sacana. o que parece a mesma coisa. mas é diferente. PAUSA PARA EXPLICAÇÃO DAS DIFERENÇAS ENTRE SACANA E SAFADO: safado é aquele que promete que vai respeitar o espaço da mulher no primeiro encontro-- mas mesmo assim, arruma um jeito de colocar as mãos nos peitos-- e, dependendo do local, arruma também um jeito de colocar a bola para dentro do gol. o sacana não. o sacana já avisa antes mesmo da mulher falar que não vai querer transar no primeiro encontro-- que vai transar com ela. o sacana já avisa para a mulher sair de casa sem soutien para ele não ter trabalho. mesmo que ela tenha deixado claro que não vai rolar nada. ou seja, ambos são bem parecidos. mas o safado muitas vezes consegue ir mais longe, porque finge que é bonzinho.

mas voltemos ao problema de leôncio. as duas mãos com vida própria. a mão safada e a mão sacana. por culpa das duas leôncio não tinha uma namorada fixa. os primeiros encontros invariavelmente terminavam com um tapa na cara dado ou por uma mulher com raiva-- ou com uma ameaça de tiro de um pai zeloso.

certa vez leôncio passou seis meses na prisão. primeiro por ter levantado de sacanagem o dedo médio em forma de caralho para um policial rodoviário. e depois, só de safadeza, por ter passado a mão na bunda dele discretamente quando ele, o guarda, se dirigia para a viatura para pegar o talão de multas.

nem sozinho leôncio conseguia se satisfazer. a mão safada fingia que iria até o final e parava antes da apoteose. a mão sacana, essa era sacana. simplesmente se recusava a sair do bolso. e, quando saia sufocava o bicho.

a ridícula vida de leôncio quase acabou com 76 cápsulas de remédio tarja preta.
sem sucesso.

porque, por mais que a mão safada sutilmente tentou colocar cada uma das cápsulas na boca dele. a mão sacana por sua vez, retirou cada uma das cápsulas logo em seguida. pois sabia que matar leôncio daquela maneira, era uma safadeza.

e deixar ele vivendo daquela maneira, isso sim era uma sacanagem.

1 comentário:

Luciana disse...

tá muito bom esse texto!!! Puta viagem!