a loteria acumulou. 90 milhões de reais. é o prêmio para quem acertar os 6 números. maria não sabe o que vai fazer se ganhar. primeiro pensou em comprar uma lancha daquelas com um jet-ski agarrado atrás. mas maria mora em minas gerais. e maria sabe-- que se é uma coisa que minas gerais não tem, é litoral. depois maria pensou que poderia comprar uma casa grande. “casa não, mansão.” mas mansão pede mordomo. e maria, leitora fiel de livros policiais, sabe que o assassino é sempre ele, o mordomo. maria espiou a lista de desejos e num honroso terceiro lugar estava lá: “diamante!” assim mesmo, com um ponto de exclamação. mas a exclamação foi breve. Porque maria tinha recentemente assistido o filme dos diamantes com o leonardo di caprio. maria, agora sabendo a origem deles, dos diamantes, perdera um pouco da vontade. Um pouco não, muito. diamantes brilhavam para maria, mas nem tanto. maria olhou novamente para a lista, que já se encontrava toda rabiscada , e viu que já não tinha destino certo para toda aquela fortuna. maria coçou a cabeça. ou melhor, maria coçou a base da nuca, expulsou o ar dos pulmões e chegou a conclusão que não sabia mais o que fazer o prêmio se ganhasse. ficou ali, parada na fila, olhando para aquele mar de gente. e, calmamente, maria deu um passo para a esquerda. não para frente. não para trás. maria saiu da fila. "a vida, cacete...", filosofou maria, "...tem mais graça, quando se tem pelo menos um pentelho que seja, de ambição."
“filho da puta!!”, gritava adalberto. o cachorro, que não falava português obviamente, apenas olhava para ele. adalberto estava puto. e com razão. seu melhor amigo acabara de mastigar as polaróides que ele tinha tirado de sua ex-namorada. as polaróides, de uma época em que câmera digital não existia ou sequer dava pistas que um dia se tornaria realidade. não dava para editar, era click, esperar, olhar e guardar. adalberto levara um ano inteiro para convencer a namoradinha a deixar ele tirar aquelas fotos. topless. tudoless. eram oito, oito fotos. muito bem guardadas. a namorada já não estava mais na área. mas, sempre que batia uma saudade, adalberto pescava as danadas na gaveta e pimba. e como é que o melhor amigo dele, do carente adalberto-- encontrou as divinas polaróides? bom, num belo dia, adalberto chegou em casa esfomeado. abriu o armário da cozinha sem pensar. e, atrás de algo para saciar a fome, encontrou, ali, meio que abandonado um saco daqueles de pipoca de microondas. daqueles com 10 anos de validade. a pipoca estava ali desde o fim do relacionamento com a dona da bunda farta que adornava aquelas polaróides. adalberto pensou não uma, mais seis vezes e jogou o saco no microondas. o cheiro da pipoca invadiu a cozinha e as narinas dele, nessa ordem. "extra manteiga", esse era o sabor da pipoca. e extra manteiga, você sabe, mela os dedos. a primeira mão de pipoca saciou a fome. a segunda mão acalmou os nervos. adalberto já podia pensar com mais clareza. e esse foi o problema. a partir do instante que a fome deixou de ser protagonista de suas grandes preocupações, a terceira mão de pipoca trouxe memórias. a namorada. a que cedeu seus direitos de imagem para as polaróides. aquelas. adalberto, como um míssil teleguiado se dirigiu para a gaveta. sem lavar as mãos. sem mesmo lamber os dedos, adalberto catou as polaróides. e fez o download mental de cada uma delas. len-ta-men-te. as imagens estavam novamente frescas na sua cabeça. com um misto de frustração e ansiedade. frustração por ter mais uma vez revelado para si mesmo aquele ponto fraco. e ansiedade para vê-las novamente. mas voltemos a primeira linha deste texto. mais precisamente ao berro de "filho da puta!!". o cachorro, sem saber o significado daquelas palavras que pulavam da boca de adalberto, só sabia que tinha feito alguma merda. mas a culpa não era dele. era da manteiga extra. o cão farejou o aroma de longe, como funcionários de um escritório ao sentir o cheiro do pipocar do milho na copa da empresa fazem. as fotos, meladas de manteiga. o cão fuçou a gaveta que fora deixada exposta pela óbvia pressa minutos antes de adalberto. e pronto, fincou os caninos em cada uma delas. o gosto era uma merda, logo concluiu o cachorro. mas era tarde. as polaróides já tinham ido para o caráio. inconsolável, de um dos cantos do apartamento, adalberto tentava perdoar o cahorro. em voz alta, adalberto murmurava: "tudo bem. tudo bem. a filha da puta era gostosa mesmo. para cacete. tudo bem." e todas as noite, desde aquele dia, sempre que adalberto encontrava um anúncio de uma máquina digital no jornal, ficava com uma vontade danada de ligar para a dona dos superlativos das finadas polaróides. "vai que...", pensava adalberto-- enquanto tentava acessar aquele cantinho da cabeça dele em que existia a quase nula chance de encontrar cópias das polaróides.